quinta-feira, 9 de junho de 2011

PORQUE BUDISMO E ZEN NÃO TÊM UMA ÉTICA ÚNICA, COMUM E CONSENSUAL (2)

Acho que cometi um erro e botei a carroça depois dos bois. O que quero dizer é que devia, primeiro, ter escrito o porque do budismo e do zen não terem propriamente uma ética comum e, só depois, publicar esse poema do LaoTzé do post anterior (ver abaixo). Fico imaginando que ninguém deve ter entendido muito bem o que ele quer dizer. Bem, então vamos lá, vou tentar explicar porque acho que essas duas religiões, essas duas filosofias religiosas, essas duas religiões filosóficas, essas duas filosofias orientais, essas duas psicologias não abrigam, de modo geral e unificado, uma ética capaz de orientar de modo unitário e abrangente aqueles que deles se aproximam.
Veja: como falar de uma ética no budismo e no zen? De qual budismo e de qual zen estaremos falando? Sim, pois não há um budismo, como também não há um zen. Talvez o mais correto fosse dizermos budismos e zens. Cada vez que alguém fala do zen ou do budismo, devíamos perguntar de qual budismo, afinal, ele esta falando. De fato, há um budismo na Tailândia, na Birmânia, no Japão, no Tibet, etc. Cada um deles, por sua vez, abrigando variadas escolas no seu interior, cada uma desenvolvendo sua própria doutrina. (Budismos, portanto). De qual ética estaríamos nos referindo?
Acho que o budismo e o zen preferem deixar que cada um descubra a sua própria.
Não deveria haver, (ou não deve haver, filosoficamente falando), uma ética geral, a priori, a não ser do ponto de vista estrito das religiões. (A ética religiosa desenvolve a lógica do mesmo, do único). Cada “ética” deve se referir ao conjunto de verdades de cada um e que, por sua vez, deverá estar relacionada a cada situação (“acontecimento”, como diria Badiou) particular, própria e intransferível. A ética deve se referir a um comportamento que signifique: “ser fiel aquilo que se vive”. E isso, basta.
Lembremo-nos que “ética” em grego, significa “maneira de ser”. Ética, portanto, deve se referir a capacidade que cada um deve desenvolver em si de, diante de cada situação, saber discriminar, escolher e decidir. Uma ética de cima para baixo, geral, coletiva é sempre problemática, perigosa e arbitrária. É a isso que o poema do Lao-Tzé se refere: "Quando o grande Tao declinou/a doutrina da humanidade e retidão surgiram/Quando o conhecimento e a sabedoria apareceram/Emergiu grande hipocrisia/Quando um país está em desordem/Haverá o louvor aos ministros leais/Abandone a sapiência e descarte a sabedoria/Então as pessoas se beneficiarão cem vezes mais/Abandone a humanidade e descarte a retidão/Então as pessoas retornarão à piedade filial e ao amor profundo".
Sim, cada “ética”, ou uma ética, ou a ética, é da ordem do individual, não do coletivo. É por isso que gosto do budismo e do zen:
Eles não têm a pretensão de dizer como você deve se comportar.

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