Os taoístas propunham um cotidiano adaptado aos ritmos da natureza. Para eles, a sabedoria é consequência de uma lógica de viver que mistura ser com fazer - o SerFazendo – numa mesma unidade operacional. A vida, diziam eles, “se constitui e se renova graças a um contato estreito com a Natureza”. Simples e naturalmente, a sabedoria profana é essa consciência: a natureza é harmonia manifestada de modos diversos.
(Então, que tal trocar o é pelo somos? A natureza somos!).
Mas atenção:
É um equívoco idealizar o que quer que seja sobre a natureza - adjetivos, qualificativos, superlativos - e, de preferência, nenhuma metáfora. Exemplificar a natureza apenas nos explicam, nos devolvendo a nós mesmos - como somos - e não ao que ela é na sua singularidade. Na natureza não há essências, “finalidades”, “objetivos”. A natureza não tem qualidades.
(Tal como o Tao).
A natureza não é boa, má, bela, feia; não é simples ou complexa. Não é poderosa, cruel, nem delicada. Não “serve” para nada, não é parâmetro ou medida. A natureza é só natureza.
(É o que é: soé).
A NATUREZA
Fogo, queima; ar, sopra.
Água, mole; terra, dura.
Rios, rios; montanhas, montanhas.
Plantas, plantas: altas, ou baixas, verdes, ou não.
Bichos, bichos: pêlo, pena, ou pluma.
Peixes, peixes: nadam.
Pássaros, pássaros: voam.
Árvores, árvores: no verão, verdes, no outono, amarelas.
Na primavera, florescem. No inverno, não.
É simples:
Nenhum valor, qualidade alguma.
Sim, a natureza é só o que ela é. Estando por perto, veja, admire. Podendo, cultive, pegue, cheire e fungue, mas deixe que ela seja o que, e como é, pois, o que a ela é, é por si só.
(Observá-la com deleite, deixar que ela apenas seja é marcar pontos na existência, dar passos na sabedoria).
Sem expectativas, cercado pelo diverso e múltiplo, pelo que é - sem atributos -, saber-se diferente da natureza porque semelhante a ela; mesma matriz na pluralidade da criação: dis-semelhante. Semelhança na diversidade, mesma unidade conforme a especificidade e os fins que cabem à cada um.
(E viva Wittgenstein, que disse: “(...). Há leis da natureza. Mas isso não se pode dizer: revela-se”; “O sentido do mundo tem que estar fora do mundo. No mundo tudo é como é e tudo acontece como acontece; nele não existe qualquer valor”. In: Ludwig Wittgenstein, Tratado lógico-filosófico. E viva Alberto Caeiro, que disse: “Por mim, escrevo a prosa dos meus versos/E fico contente/Porque sei que compreendo a Natureza por fora;/E não a compreendo por dentro/Porque a natureza não tem dentro;/senão não era Natureza”. “O guardador de rebanho”. In. Fernando Pessoa, O EU profundo e os outros EUS. E viva também Nietzsche, que disse: “Não existe forma na natureza, porque nela não há interior nem exterior”. In: Friedrich Nietzsche, O livro do filósofo).
Samanea tubulosa (Benth.) Barneby & grimes
Há 12 anos
Noutro dia li que a natureza não é boa nem é má. A natureza simplesmente nos ignora. Mas acho que nem isso.
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