Mikal Gilmore, Ponto Final. Crônica sobre os anos ‘60 e suas desilusões. Ed. Companhia das Letras, SP, 2010.
(OS ANOS ’60)
- Nixon não passa de um reles escroque e um implacável criminoso de guerra que, ao bombardear o Laos e o Camboja, matou mais pessoas do que as que morreram no Exército americano durante a Segunda Guerra Mundial, e nunca admitiu isso. Quando estudantes da Kent State University, em Ohio, protestaram contra os bombardeios, ele atuou por baixo dos panos para que fossem atacados e mortos por soldados da Guarda Nacional. Alguns dirão que palavras como rebotalho e vagabundo não devem ser usadas no Jornalismo Objetivo – é verdade, mas essas pessoas não percebem que a questão não é essa. Foram os pontos cegos das regras e normas desse jornalismo que, em primeiro lugar, permitiram que Nixon se esgueirasse até a Casa Branca”. Capítulo: “Hunter S. Thompson. O último fora da lei”.
- Qualquer um que beba muito regularmente o faz por várias razões. Pode ser uma inclinação genética ou um transtorno emocional, problemas aos quais a bebida parece dar uma trégua rápida. Mas há outras razões: a bebida – como as drogas – oferece inspiração, se consumida em doses moderadas. Além disso, a bebida – como as drogas - dá a sensação de uma aventura selvagem ou audaciosa. Ela lhe dá permissão para qualquer tipo de comportamento – às vezes engraçado ou bobo, às vezes tão horrível que chega a ser inacreditável. O problema é que essas vantagens têm vida curta, cada vez mais curta à medida que as noites passam, da mesma maneira que se reduz a expectativa de vida de quem bebe muito. Capítulo: “Jim Morrison e o Doors: as virtudes do desperdício”.
- Morrison [Jim Morrison, cantor da banda de rock The Doors, morto aos 27 anos num quarto de hotel em Paris, de ataque do coração por excesso de drogas], é verdade, poderia ter tido uma vida mais longa, mas não foi isso que escolheu. Ele resistiu a tudo que pudesse conter seu vigor, e decidiu crescer se negando a si próprio. Algumas pessoas, como muitos de nós aprendemos, simplesmente não podem ser salvas de si próprias. O declínio se torna parte dos desígnios de sua vida. Da mesma maneira, Jim Morrison teve a determinação de superar a autonegação através de uma obra bela e sombria, que, passados mais de 35 anos de sua morte, ainda tem boas razões para resistir e comover. Que se dê a ele esse crédito. Capítulo: “Jim Morrison e o Doors: as virtudes do desperdício”.
André Compte-Sponville. “ O alegre desespero”. In: Edmond Blattchen, Nomes de Deus. Ed. Unesp.
(O ATEÍSMO)
Crer em Deus é crer que tudo estará bem, amanhã ou depois de amanhã: que, no fundo, vivemos no melhor dos mundos possíveis, e, sobretudo, que depois da morte o essencial estará adquirido.
Ser ateu é o contrário. É pensar que nem tudo estará melhor amanhã, que nada está jamais adquirido nem prometido, enfim, que todas as nossas esperanças só desembocam, no fim das contas, no nada. Não é o mais fácil, mas, ainda uma vez, a esperança, o conforto ou a facilidade não são argumentos. É o que Clément Rosset chama de “a lógica do pior”: tomemos as coisas pelo pior, mas também pelo mais provável, pois, desse pretenso Deus, não se conhece nada, dessa vida após a norte não se conhece nada; o que constatamos é a vida como ela é, e a morte como ela advém.
E, diante desse pior, tentemos viver o melhor do que somos capazes. Tentemos atingir a maior felicidade possível, tentemos amar tanto quanto podemos!
(O BUDISMO)
O budismo, como aliás as sabedorias gregas, é para nós um exemplo precioso, precisamente porque nos oferece o exemplo de uma espiritualidade sem Deus. E de uma verdadeira espiritualidade que, no Oriente budista, inclui as dimensões extremas da vida espiritual, que se qualificam comumente de místicas. O que o Oriente – e especialmente o Oriente budista, que é o menos religioso dos Orientes – nos ensina é que a vida espiritual não se reduz à vida religiosa, que o espírito do homem não se reduz a essa relação, pretensamente pessoal com um Deus trasncendente, mas pode ser simplesmente uma maneira de habitar a vida, o mundo, o universo. Uma maneira de viver suas relações consigo, com o real, com outrem – com tudo.
O senhor evoca a ataraxia dos epicuristas, dos estóicos, ou seja, a serenidade, ou seja, a paz consigo; é preciso acrecentar philia, “a amizade”, ou seja, a paz com outrem. Creio que uma vida bem-sucedida é uma vida em paz; em paz consigo, a serenidade, em paz com outrem, a amizade, como diziam os gregos. O amor, como se dizia antes no Ocidente cristão, mas, no fundo, é a mesma coisa. O essencial a se viver está deste lado.
André Compte-Sponville. Filósofo francês, autor de inúmeros livros, entre os quais O Espírito do Ateísmo, e Bom dia angústia!, editados pela Marins Fontes. Clément Rosset é outro filósofo bastante interessante, autor ,entre outros livros, de A lógica do Pior, e Princípio de Crueldade. Todos esses livros estão disponíveis em português. Mas, atenção: filósofos, em geral, não são fáceis de ler; em compensação, como já disse numa entrada anterior do blog, se você entende tudo o que um filósofo diz, bem, pode jogar fora, que ele não deve ser bom…
Samanea tubulosa (Benth.) Barneby & grimes
Há 12 anos
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