segunda-feira, 2 de maio de 2011

BUDISMO


Atenção: essas são observações pessoais, produto de uma leitura própria. O Budismo,como se sabe, é formalmente ruma eligião. Entretanto, a minha hipótese - leiga e laica -, é que a religião não esgota as diversas propostas - existenciais, filosóficas e psicológicas - do Budismo. Ao contrario, a religião simplifica e empobrece seus conteúdos.

1
Para as religiões formais, só há salvação mediada - dentro, através - por elas. Um contrato firmado no presente para cumprimento no futuro. Já o Buda, bem, o Buda intuiu o contrário: o Budismo é um contrato entre as partes, cujo cumprimento exige um investimento aqui mesmo, isto é, no presente. De fato, a mensagem final do Buda pode ser resumida na seguinte afirmação:
Saber de si, salva!
Ver-se como se é, liberta!
(Cinco mil anos antes de Freud .... Bem, em todo caso, ser o que se é não é fácil; trata-se de conquista árdua e dolorosa).

2
Religiões formais afirmam que a salvação é uma possibilidade e uma promessa, até mesmo um direito posterior - bem entendido - à vida material: isto é, é preciso que a vida cesse para que se possa salvá-la; é preciso que o sujeito morra, para que possa salvar-se. Religiões formais consideram a salvação da vida do sujeito depois que ela cessa, depois que ele deixa de sê-lo!
(Quer dizer, o direito de salvar-se você ganha ainda nessa vida, mas o desfrute propriamente dito, ah!, amigo, esse, só depois, lá no céu).

A SALVAÇÃO PESSOAL SEGUNDO O BUDISMO
I
A salvação está na própria vida,
antes que ela - vida - cesse.
Antes que ele - sujeito - deixe de sê-lo.
Onde as religiões formais afirmam:
Perca sua vida, para salvá-la!
O Budismo ordena:
Salve sua vida, antes de perdê-la.

(Salvar-se é crescer, diz a psicanálise.
Salvar-se é curar-se da vida, diz o budismo.
Salvar-se é curar a alma, diz Epicuro.

Salvar-se significa, portanto, crescer; que significa, portanto, possuir-se; que significa, portanto, curar-se; que significa, portanto... salvar-se).

3
O Buda insistia na inutilidade de igrejas, cultos e cerimônias como caminho para a Salvação Pessoal, bem como na descrença de qualquer autoridade externa como meio para alcançá-la. O Budismo é uma prática solitária e individual que não só não inclui idéia alguma de salvação posterior, como, muito menos, coletiva. (A idéia de comunhão é tipicamente ocidental e cristã: “Os franciscanos foram os principais difusores da idéia de que ninguém se salva sozinho, que é toda a humanidade, toda a criação que deve se salvar ela própria”. (Jacques Le Goff, São Francisco de Assis).
O budista tem consciência de que ninguém está habilitado a salvar ninguém; ele sabe que cabe à cada um dar conta de si próprio, e que não há nada a ser salvo além ou fora de si mesmo. O Budismo, em consequência, abriga a idéia de que “religião” é menos uma fé praticada em comum, e mais um exercício autônomo e solitário de reflexão pessoal. Pura imanência.
O Buda descobriu que a Salvação Pessoal não é barganha, mas relação e investimento do sujeito sobre si mesmo. Veja só o que disse Foucault a respeito das salvação (num outro contexto, referindo-se a outros objetos, evidentemente, mas, de qualquer modo, nos dando um pista sobre para onde uma abordagem laica da salvação pode apontar): “A salvação é, portanto, uma atividade permanente do sujeito sobre si mesmo, que encontra sua recompensa em uma certa relação consigo ao tornar-se inaccessível às perturbações exteriores e ao encontrar em si mesmo uma satisfação que de nada mais necessita senão dele próprio”. (In: Michel Foucault, A hermenêutica do sujeito).
A originalidade do Budismo foi inserir a idéia de salvação num contexto puramente existencial, material e psicológico. Única e exclusivamente, sua preocupação é a salvação do sujeito através da consciência de sua condição material. Produto de intuições no campo abrangente da espiritualidade, a salvação se pratica, se exerce e se exterioriza no dia-a-dia, sem testemunhas ou autoridades.
O Buda descobriu que salvar-se de si implica encontrar a si. Essa é a boa notícia. A má, é que si é um lugar difícil de ser encontrado, e ninguém pode fazer isso com ou por você:
Si, amigo, é um caminho solitário.

O BUDISMO
I
Mais - uma doutrina para ser pensada.
Menos - uma religião para ser rezada.

II
Uma linguagem espiritual,
- discursos -
onde escolas espirituais diversas encontram abrigo,
suporte e sabedoria.
(Jung dizia que o Budismo é “um imenso mundo-pensamento”. In: Daisetz Teitaro Suzuki, Introdução ao Zen-Budismo).

III
O Budismo é menos religião pra fora que intuição pra dentro.
- Proposta de mergulho na condição humana -
Mais psicanálise que religião.
Mais consciência que fé.
Mais aprendizado, que dogma.
Mais sabedoria, que devoção.

IV
Sim,
o Budismo envolve uma terapia.
ele nos cura de nós mesmos.
Cura da vida.
(A idéia de que o Budismo “cura da vida” é de H. Zimmer: “[o Buda] nos cura da vida da maneira como a vivemos. (...) Como primeira verdade, ele determina que o ser humano não está são e que sofre. Ele afirma isso de maneira serena, sem perguntas acerca de qualquer culpabilidade, sem pathos de origens metafísicos. O que esse sofrimento humano pode ser, não é ensinado através de especulações, mas da observação simples sobre a sua existência finita, limitada e condicionada (...) O Buda se situa frente ao ser humano, algo assim como o psicoterapeuta frente ao paciente que se crê sadio, ao passo que o olhar do médico percebe todas as suas tensões e complicações, toda a gravidade do caso. O diagnóstico é que essa vida está cheia de sofrimento, e que a causa principal - da qual emergem todos os sintomas deste diagnóstico - é a ignorância (...) O diagnóstico budista qualifica como patológico todo essa vida automática. Um estado de sofrimento que poderia ser sanado”. Tradução pessoal. In: Heinrich Zimmer, Yoga y Budismo).

V
Não há nada a ser salvo de nada, ninguém a ser salvo de ninguém.
A não ser o sujeito do próprio sujeito, é claro! (Salvar-se depende da capacidade de descobrir e de lidar com os outros de si mesmo - dentro de si).

VI
O Budismo é:
Uma relação direta e sem intermediários do sujeito com si mesmo.
Uma prática individual e solitária.
Uma intuição direta que não demanda qualquer ritual, nenhuma cerimônia, lugar algum de culto ou reverência.
(Erguer altares para Buda? Tudo bem, o Budismo tolera nossas humanas fragilidades...).

Um comentário:

  1. Luiz, o que mais me incomoda no budismo é o que parece ser a grande vantagem dele, ou seja, a falta de uma estrutura de moral. De certa forma me parece um mergulho egocentrico e ao mesmo tempo dissociado da realidade. Como o budismo pode formar uma opinião? Por exemplo sobre a pena de morte? Sun Tzu no famigerado livro da Arte da Guerra fala em conhece-te a ti mesmo antes de conhecer seu inimigo. Parece que o budismo se presta não a justificar guerras mas a aceita-las. Se presta a uma manutenção do estado de coisas externo, pois tudo se dá dentro. Podemos pensar num movimento budista para mudar o estado? Me salve!

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