sábado, 1 de janeiro de 2011


INFERNO ASTRAL

Agnus dei qui toles peccata mundi
miserere nobis
(Por isso, não tenho medo).

Sou o tempo de Borges, sou o rio de Heraclito, sou a tromba de Ganecha.
(Por isso, não tenho medo).

Sou o arco, a flecha e o alvo. Tudo se move,
mas o movimento não existe, disse Zenon de Eléia.
(Por isso, não tenho medo).

Sou filho de Omulu, sou o cavalo que Exu monta
nas encruzilhadas do destino.
(Por isso, não tenho medo).

Brahma criou o mundo como ilusão.
Eu sou o mundo.
(Por isso, não tenho medo).

Como derviches rodopinado loucamentes,
dentro de mim, uma célula enlouqueceu.
Essa célula sou eu.
(Por isso, não tenho medo).

Entre amados e chegados, sou grato por ter sido escolhido.
Sou bravo e sou forte, sou guerreiro da tribo Tupi.
(Por isso, não tenho medo).

Sou a gota no oceano. Sou o bigode que o profeta consulta.
Não vamos para lugar nenhum.
(Por isso não tenho medo).

O encontro está marcado,
e a bala, na agulha.
Sou o que semeia, e sou o que colhe.
Sou o que, igualmente, ceifa.
(Por isso, não tenho medo).

(Sim, sou o que pergunta, e sou o que responde.
Não há mais perguntas!
E essa é a resposta).














4 comentários:

  1. essa poesia corta como o aço de uma navalha. tiro meu chapéu

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  2. É lindo. Mas, dói como o inferno astral. Que venha o sol do Capricórnio.

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  3. O início, o fim, o meio. Tudo perfeito nessa poesia. Linda. Acho que vc devia fazer uma versão podcast do seu blog.

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  4. Melhor do que apreciar seu talento como poeta é constatar a coragem e o desassombramento com que voce enfrenta a coisa, puxa vida...

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