sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

UM POUCO DE GEORGES BATAILLE NA VEIA NÃO FAZ MAL A NINGUÉM

- Estamos totalmente expostos somente quando nos dirigimos sem trapacear ao desconhecido. É a parte do desconhecido que dá à experiência de Deus - ou do poético sua grande autoridade.

- Meu princípio contra a ascese é que o extremo é acessível pelo excesso, não pela falta.

- Chegamos ao êxtase através de uma contestação do saber.

- A verdadeira poesia se encontra fora das leis.

- Apreendo soçobrando que a única verdade do homem, enfim entrevista, é de ser uma súplica sem resposta.

- “Si mesmo” não é o sujeito isolado do mundo, mas um lugar de comunicação, de fusão do sujeito e do objeto.

- Chamo experiência uma viagem ao término do possível do homem. Cada um pode não fazer essa viagem, mas, se ele a faz, isso supõe negar as autoridades, os valores existentes que limitam o possível.(...) Ir ao término significa pelo menos isto: que o limite, que é o conhecimento como fim, seja ultrapassado.

- O homem só possui a paz, fugindo.

- O essencial é o extremo do possível, onde o próprio Deus não sabe mais, desespera e mata.

- O extremo é o único ponto por onde o homem escapa de sua estupidez limitada – mas ao mesmo tempo para soçobrar nela.

- O extremo do possível supõe riso, êxtase, aproximação aterrada da morte; supõe erro, náusea, agitação incessante do possível e do impossível e, para terminar, quebrado, embora gradualmente, lentamente desejado, o estado de súplica, a sua absorção no desespero.

- Ironia! Que me chamem de panteísta, ateu, teísta!... Mas eu grito aos céus: “não sei nada (...) nada, absolutamente”.

- Somos talvez a ferida, a doença da natureza.

- A experiência é o colocar em jogo (à prova), na febre e na angústia, aquilo que um homem sabe pelo fato de ser. Caso, nessa febre, ele tenha qualquer apreensão que seja, não pode dizer: "eu vi isto, o que vi é tal"; não pode dizer: "eu vi Deus, o absoluto ou o fundo dos mundos", ele só pode dizer "o que vi escapa ao entendimento", e Deus, o absoluto, o fundo dos mundos não são nada se não forem categorias do entendimento.

- Só matamos o desejo dos objetos à condição de propor ao desejo um novo objeto.

- Além dos possíveis conhecidos, uma angustia tão grande habita o cinza do céu, da mesma maneira que um monge, a escuridão de um túmulo.

- Os pressupostos dogmáticos deram limites indevidos à experiência; aquele que já sabe não pode ir além de um horizonte conhecido.

- [A experiência interior] não leva a porto algum, mas a um lugar de extravio, de contra-senso.

- A experiência interior é um movimento em que o homem se coloca inteiramente em questão.


- Um homem que ignora o erotismo é tão estranho quanto um homem sem experiência interior.

- A experiência é o colocar em jogo (à prova), na febre na angústia, aquilo que um homem sabe pelo fato de ser.

- [Sobre os diversos enunciados da “experiência interior”] É preciso apreender o sentido deles a partir de dentro. Eles não são demonstráveis logicamente. É preciso viver a experiência, ela não é facilmente acessível, e mesmo, considerada de fora pela inteligência, seria preciso ver aí uma soma de operações distintas, algumas intelectuais, outras estéticas, outras, enfim, morais, e todo o problema a retomar: é somente a partir de dentro, vivida até o transe, que ela aparece unindo o que o pensamento discursivo deve separar.

- É através de uma íntima cessação de toda operação intelectual que o espírito se expõe.

- O instante crucial é o da morte; no entanto, desde que a ação começa, tudo está em questão, tudo está presente.

- Escrevo para apagar meu nome.

Georges Bataille (1897/1962) é um dos mais instigantes filósofos que a França produziu. Deu enormes contribuições no campo da filosofia, da literatura e da psicanálise. Lacan, por exemplo, deve muito a ele. Algum dia, quem sabe, ainda farei um estudo comparando-o com Nietzsche, pois acho que são muito semelhantes.
Veja só:
BATAILLE: E o que significa a pergunta sem angustia, sem suplício? No momento de ficar louco, a resposta aparece; como poderíamos ouvi-la, sem isso?
NIETZSCHE: Você tem que estar preparado para se queimar em sua própria chama; como se renovar sem primeiro se tornar cinza?
BATAILLE: O dramático (...) é simplesmente ser.
NIETZSCHE: Torna-te o que tu és.
BATAILLE: Só atingimos os estados de êxtase, ou de arrebatamento, dramatizando a existência em geral.
NIETZSCHE: É preciso ter o caos e frenesi dentro de si para dar a luz à uma estrela dançante.
Além do mais, Bataille foi também um escritor de mão cheia. É impressionante como os franceses - será que a língua ajuda? - sejam escritores ou filósofos, cultivam o estilo, a arte de bem escrever. Seus filósofos, por mais difíceis que sejam, dão uma aula de estilo. Talvez o melhor exemplo seja Foucault: como todos, não é um filósofo fácil de ler, entretanto, de repente, um parágrafo e, pronto, já valeu a viagem.
Bem, fiquei tentando recuperar a origem de cada uma dessas citações. Não posso afirmar com 100% de certeza, mas é quase certo que foram pescadas, ao longo do tempo, dos livros A experiência interior, A parte maldita, Teoria da religião e La religión surrealista.

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