Cair: ausência de lugar fixo.
Cair...
para um ou outro lado: O sábio perde as certezas do eu.
Cair...
para um ou outro lado - indiferente - o sábio não teoriza.
Cair...
para um ou outro lado - sereno - o sábio segue sua natureza.
Cair...
para um ou outro lado - desapego - o sábio sabe de si, nada o constrange.
Cair...
para um ou outro lado - seguro - o sábio não tem objetivo.
Cair...
para um ou outro lado - disponível - para o sábio tudo é igual.
Cair...
para um ou outro lado - romper conteúdos que mantêm a mente nos limites da razão.
Cair...
para um ou outro lado: desaprender, livrar-se de manhas e tramas.
Cair...
da corda bamba - nenhuma escolha. Irrepreensível.
Cair...
não importa se há caminho, caminho do meio, nenhum caminho.
Cair... e então,
Plenamente
Mergulhar no abismo de si mesmo!
(Todo sábio é um equilibrista: todo sábio cai).
Tinha pensado em fazer uma introdução à essa poesia, falando do Caminho do Meio” do budismo. Segundo a doutrina, o “Caminho do Meio” leva a sabedoria por manter o discípulo longe dos extremos (nem a vida fácil do príncipe, nem a ascese rigorosa do eremita).Tinha pensado em usar o equilibrista que se mantém na corda-bamba como metáfora. Pensei nessa introdução, porque tenho uma posição divergente: para mim, ao contrário, o “Caminho do Meio” se confunde com a razão, o bom-senso e o senso-comum. Ele implica escolha e, assim, permanece no campo restrito e minado da razão cotidiana. O equilibrista, isto é, o discípulo de si mesmo, o sábio profano tem que cair. Perder as rédeas de si mesmo, se descompromissar, isto é, virar seus compromissos pelo lado do avesso. Esse argumento, de qualquer modo, está desenvolvido no meu livro sobre o zen, aquele “que não termina nunca”.
Bem, cair, portanto, é uma estratégia de movimento.
Nesse caso, inevitavelmente, é preciso que o equilibrista - isto é, o discípulo de si mesmo, isto é, o sábio - caia, sem esforço ou direção.
Samanea tubulosa (Benth.) Barneby & grimes
Há 12 anos
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