O maior, senão único, tributo que um discípulo paga a seu mestre,
é ultrapassá-lo.
A maior lição, senão única, que um mestre dá a seu discípulo,
é liberá-lo.
Koan profano (1):
Quanto mais se reverencia um mestre, menor se fica.
Quanto mais se cultua um mestre, menos equilibrada é a relação.
(E menos potente o ser).
Nessa relação - inevitavelmente datada - cabe ao discípulo compreender que o mestre é aquele que não ocupa Lugar-Nenhum, ou melhor, que o único lugar que ele ocupa é o “lugar vazio”, pois só a partir dele é possível que o discípulo “caia em si"; isto é, esvazie-si; isto é, duvide; isto é, aprenda; isto é...
O verdadeiro discípulo deve entender que não há Lugar-Nenhum que o mestre possa estar para, daí, formular seu discurso. Lugar-Nenhum significa:
- Não há “lugar de discurso”, a partir do qual o mestre se pronuncia.
- Não há, de um lado, mestre e, de outro, discurso, pois o mestre, sendo o que é, é o seu próprio e exclusivo discurso.
- Não há nenhum discurso a ser pronunciado, logo, Lugar-Nenhum é o lugar verdadeiro do verdadeiro mestre.
Mas, do que é que não se pode falar? Da sabedoria. Mas, porque não se pode falar da sabedoria? Porque ela diz respeito a uma verdade. Mas, porque não se pode falar de uma verdade? Porque ela é produto de uma experiência pessoal. Mas, porque não se pode falar de uma experiência pessoal de busca da verdade?
Bem, porque ela produz sabedoria.
Emudecer significa que o mestre não tem apego ao que diz, significa, sobretudo que, caminhando, o mestre não deixa marcas de seu caminho.
A sabedoria emudece o mestre. (Segundo Nietzsche: “Só se permanece filósofo mantendo o silêncio”. In: Friedrich Nietzsche, Humano, demasiado humano. Segundo os taoístas: “Quem sabe, cala”. Lao-Tzé, Tao-Te-King. Em tempo: o emudecer do mestre não significa necessariamente calar-se; significa dizer e nada dizer; a consciência do vazio que tudo percorre: “Essa ambigüidade do vazio - tornar possível o dizer e, ao mesmo tempo, nada dizer - levou os filósofos a relacioná-lo com o silêncio do sábio”. In: Juan Arnau, Antropología del Budismo).
A verdade é produto de uma experiência do pensamento sobre si mesmo. (Quem não a experimenta em si, não sabe do que ela trata).
Tal como a sabedoria, a verdade engaja o sujeito numa experiência de transformação pessoal. Exclusivamente produto de intuição, ela resulta do trabalho do sujeito sobre si próprio. Não pode ser passada adiante, não pode ser transmitida.
(Não se ensina, ou não é uma verdade).
Portanto, o mestre que tem verdades a dizer a seu discípulo está iludido, envolvido, enredado nas malhas e tramas de si mesmo:
Verdadeiramente, não é um verdadeiro mestre.
O MESTRE VERDADEIRO
- Não é aquele que sabe - o que o discípulo não sabe -, mas aquele que sabe que não sabe o que o discípulo sabe.
- Não é aquele que “transmite”, mas aquele que “permite que brote”.
- Não é o que aponta para algo, mas o que aponta - por ser como é - o discípulo para o próprio discípulo.
(Cabe a ele, portanto, reconhecendo esses atributos no seu mestre, deixar de sê-lo).
- Para o mestre, ensinar, é duvidar de suas certezas.
- Para o discípulo, aprender, é duvidar das certezas do mestre.
Koan profano (2):
O verdadeiro mestre,
sabe que não é um verdadeiro mestre.
Só assim, torna-se um verdadeiro mestre.
(E viva Lao-Tsé, que disse: “O homem verdadeiramente virtuoso/Não se tem como tal/É isso que faz dele verdadeiramente virtuoso”. Lao-tsé, Tao-Te-King. In: Julián Serna Arango, Ontologias alternativas).
Koan profano (3):
Seguir um mestre... é negá-lo.
Desfrutá-lo... é descartá-lo.
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Samanea tubulosa (Benth.) Barneby & grimes
Há 12 anos
Acho que uma das questões fundamentais do zen tem a ver com a certeza. Uma palavra anti-zen. Quando há certeza não há zen. Mas seria o zen a incerteza, o incerto? Acho que não, certamente não? O incerto não é errado, nem provável ou improvável, o incerto é menos que um talvez, e mais que não, é o desenrolar de um futuro questionável, desconhecido. A certeza por sua vez é a barreira, a certeza não faz a ponte, é a margem. A certeza não olha, não conjectura, não descobre, a certeza só é até que não seja mais.
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