- Usar um dedo para provar que um dedo não é um dedo não é opção tão boa quanto usar um não-dedo para provar a mesma coisa. Usar um cavalo para provar que um cavalo não é um cavalo não é opção tão boa quanto usar um não-cavalo para provar que um cavalo não é um cavalo. Céu e terra são um dedo. Todas as dez mil coisas são um cavalo. Certo? Não. Certo? Certo.
- Exaurir o espírito e a mente num esforço de transformar as coisas no Uno, sem jamais perceber que todas são iguais - a isso chamo "Três da manhã". E por que "três da manhã"? Certo criador de macacos os alimentava com nozes. Quando disse: "vou lhes dar três de manhã e quatro à tarde", os macacos ficaram furiosos. Então sugeriu: "quatro de manhã e três à tarde", e os macacos deliraram. As palavras dizem a mesma coisa, porém a primeira construção gerou raiva e a outra, delírio. O criador simplesmente lançou mão desse conhecimento. O sábio coloca o que é em harmonia com o certo-e-errado, e descansa embaixo da árvore do equilíbrio da natureza. Isso se chama trilhar dois caminhos ao mesmo tempo.
- Há um início. E há um não-ainda-início-a-vir-a-ser-início. Há um ainda-não-início-a- vir-a-ser-não-ainda-início-a-vir-a-ser-início. Há o ser. Não há início a vir a ser um ser. Ah, súbito há o ser e o não ser. Acabo de dizer o que tinha a dizer. Mas não sei se esses meus dizeres disseram algo ou coisa nenhuma.
- O céu e a terra nasceram comigo. As dez mil coisas e eu somos um.
- Não se meta a ir de algum lugar a algum lugar. É aqui que está!
- Quem sabe a explicação sem palavras e o Tao que não é o Tao? Saiba isso e se torne o |Armazém do Céu: onde as coisas podem ser colocadas sem jamais encher; de onde as coisas podem ser tiradas sem jamais esvaziar. E no entanto ele mesmo não sabe nem porque nem como.
- Para mim, as linhas da compaixão e da retidão, as trilhas do certo e do errado são tão torcidas e cheias de nós que simplesmente não consigo distingui-las.
Chuang-Tzu (369/286 a. C) é um dos mais importantes mestres do Taoísmo chinês. Foi um feroz opositor do Confucionismo e seu rígido sistema ético e moral. Impecável filósofo daquilo que, séculos depois, os gregos chamariam de "ceticismo". Foi também introdutor do que, posteriormente, o Zen sistematizaria como "koans", isto é, paradoxos, non-senses mentais cuja finalidade última é quebrar a razão do sujeito, permitindo que ele tenha, assim, acesso a uma outra realidade. Thomas Merton, um monge eremita cisterciense que mergulhou fundo no zen para melhor se comunicar com seu Deus cristão, escreveu um interessante livro sobre ele chamado A via de Chuang-Tzu.
Ontem no Jornal Metro Campinas deu uma manchete que parecia um koan: "Legislativo derrubou ontem parecer contrário de comissão que engavetava projeto voltado a proibir contratação sem concurso pela Prefeitura de condenados pela justiça." tive que ler umas cinco vezes para ter certeza que era uma notícia boa.
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