
Apesar de ateu definitivo, tenho o maior orgulho das religiões afro-brasileiras, ricas de conteúdo e sentido. Gosto de pensar na diversidade panteísta de seus orixás; gosto de ver como são um com a natureza. Gosto de saber que somos todos, indistintamente, filhos de Oxalá; que há uma deusa, Iemanjá, rainha das águas, e outra, Iansã, senhora dos ventos. Gosto de pensar que Oxossi é o guerreiro da floresta, Xangô, o rei do raio e do trovão, e que Omulu, meu pai, toma conta dos doentes. Gosto de imaginar que seus deuses cuidam diretamente de nós sem perguntar quem somos, como gosto de saber que estão perto, misturados, que podemos vê-los e senti-los como parte de nossa vida cotidiana. Gosto da comida de seus santos, tão nossas, como gosto da simplicidade de suas danças, seus pontos, seus cantos de fé; gosto do ritmo de seus batuques e de como eles falam com seu povo. Gosto dos filhos e filhas de santo; gosto de ver a dignidade das velhas ialorixás, como gosto da graça e da delicadesa das jovens iaôs e abiãns. Gosto, sobretudo, da certeza de que por todos esses séculos, contra tudo e todos, as religiões afro-brasileiras foram resistência e transgressão; como gosto de saber que, depois de muito sofrimento e humilhação, elas hoje fazem parte desse patrimônio cultural que nos pertence a todos, nos enriquecendo como indivíduos e nos dignificando como povo.
E, em assim sendo, saravá!
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Na São Clemente quase em frente à atual prefeitura, tinha um terreiro ou equivalente onde se baixava o santo, batia tambor e tudo mais. Era uma época que o Dona Marta ainda não tinha sido "promovido" a *Santa* Marta. Eu passava no ônibus 104 em frente e pequeno que era tentava vislumbrar alguma transcendendaridade. O ônibus nessa época tinha suspensórios que o prendiam a fios e sua porta larga central era mais convidativa. No colégio vi um documentário onde os brancos deslumbrados chegavam compenetrados no terreiro e tentavam participar com respeito e reverência. Mas não sei porquê aquilo tudo pareceu estranho e me deixou com medo, com a certeza que existia um segredo que eu nunca iria compartilhar.
ResponderExcluirO fascínio é natural, uma vez que parte dos ensinamentos das religiões africanas, principalmente de algumas vertentes da umbanda, diz que nos outros planos não há religião. E voce é assumidamente ateu.
ResponderExcluirA coisa é bem simples nesses ensinamentos; a religião é como time de futebol: nos divertimos com ela, produzimos cânticos por ela, brigamos por ela, nos arrepiamos com ela, sofremos por ela e, principalmente, tendemos a achar que a nossa é melhor que as demais. Porém, é só um produto humano que possibilita o contato com outros planos energéticos.
Há personificações de deuses, sim (em algumas dessas religiões mais do que em outras). Mas por limitação dos próprios homens que dela se utilizam. Valorização de algumas figuras? Também, uma vez que algumas pessoas deixaram ensinamentos muito grandes, capazes de construir a moral e a ética dos indivíduos, ajudando o processo evolutivo (a reencarnação em alguns casos é presença marcante). Porém, de fato, não há como apontar deus ou afirmar quais foram tais figuras importantes (nisso o sincretismo ajudou bastante)....Talvez as religiões africanas façam parte das religiões atéias....
Antes que pareça um pregador, não de roupa, mas de time de futebol, prova está nos guias que fazem contato através dos médiuns. Por vezes, um caboclo não foi um indígena, ou um preto-velho um escravo, ou uma criança um escravo-mirim. Há presença de pessoas da Ásia, da Europa, etc, que se apresentam como escravos ou índios. Culpa do fascínio, que nos faz entender seus ensinamentos somente quando assim se apresentam...Enfim, só um comentário ao post.