- O taoísta Chang-Tzu desenvolveu no séc. IV a. C. uma teoria sobre o real. Não se trata de negá-lo, dizia ele, mas sim da impossibilidade da distinção entre o que ele é ou não é. Qual a diferença entre vigília e sono? Estamos despertos porque estamos acordados, ou estamos acordados só quando estamos sonhando? O sonho é coerente até o momento em que acordamos; a vigília é coerente até o momento em que dormimos. Como afirmar que um é mais real que o outro?
Por exemplo:
- Certa vez Chuang-Tzu sonhou que era uma borboleta e, uma vez acordado, não sabia agora se era uma borboleta sonhando ser Chuang-Tzu.
- Borges, num encontro que teve com si próprio num banco de praça em Boston, diz o seguinte: “Se essa manhã e esse encontro são sonhos, cada um dos dois tem que pensar que o sonhador é ele”.
- Lewis Carroll conta a seguinte história: "'Ele está sonhando agora', disse Tweedledee, 'e com quem é que você pensa que ele está sonhando'? 'Ninguém pode adivinhar uma coisa dessas', observou Alice. 'Ora, ora, é com você’! exclamou Tweedledee batendo palmas triunfalmente. 'E se ele deixasse de sonhar com você, onde é que você acha que estaria’? ‘Aqui, no mesmo lugar, é claro’, disse Alice. ‘Nada disso!’ replicou Tweedledee com desdém, ‘você não estaria em lugar nenhum, pois você é apenas uma espécie de imagem no sonho dele! Se o Rei acordasse’, acrescentou Tweedledee, ‘você se apagaria - puff - como a chama de uma vela’”.
- Shakespeare, por sua vez, diz: “Somos a matéria de que os sonhos são feitos”. Certo, mas eu gosto de pensar que podemos inverter essa frase. Assim: “Somos o sonho de que a matéria é feita”.
- E, finalmente, vejam essa reflexão de Alberto Caeiro, segundo eu mesmo, o melhor dos heterônimos de Fernando Pessoa: “Não sei quem me sonho”.
Respectivamente:
- J. L. Borges, “O outro”, p. 9. O livro de areia.
- L. Carroll, “Capítulo
- W. Shakespeare, A tempestade, 4 ato, 1ª cena.
- A. Caeiro, ‘Chuva obliqua”, p, 114. In: Fernando Pessoa, O EU profundo e os outros EUS.
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