segunda-feira, 5 de julho de 2010

Eu e o tempo

Dois pingos de neve nos cumes do Annapurna.
Marco Polo no caminho da seda.
Uma nau portuguesa no rumo errado.
Um encontro marcado, passos, e o filme começado.

Um pinguço dormindo solto numa esquina qualquer.
Amigos, cerveja gelada - futebol, mulheres - e carros e ônibus e gentes que passam apressados.
Um arpoador japonês e uma jubarte morta nos gelados do Mar do Norte.
Uma menininha de tranças pula corda num subúrbio bem aparado de Connecticut.
Um morto é acolhido no ceú dos crentes.
(Lá embaixo, o diabo açoita mais uma alma que acreditou ser livre).

E a lagarta percorre o jardim,
que viceja e vigora com flores diversas.

Um doente e uma televisão num quarto de hospital.
Um músico anônimo entre insones, felizes como ele.
Uma borboleta - será Deus? - bate asas na China: tempestade nos trópicos.
E o gato consulta seus bigodes.

O estudante que não sabe matemática.
Uma adolescente que dá ou não dá.
E o executivo que escova seus dentes distraído.
Um pároco de subúrbio e a missa das dez. Crentes, beatas e pecadores cotidianos rezam para seu deus imaginário e invisível.
Um trem descarilha numa encruzilhada do destino.
Amantes trocam juras que jamais serão cumpridas.

O tempo é marcado pelos ontens que cabem nos hojes.
É ilusão, diz o Oriente.
É simultâneo, diz Borges.

Você de avental vermelho com uma vassoura na mão.
Eu, sentado no sofá.
EMBASBACADO.

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